Entrevista concedida por LEONEL NUNES, postada no Portal Pimba, retirada do jornal terras da beira, datada de 1997. Fica aqui uma pequena descrição do grande artista.
«Procuras bem!», diz-me ele quando lhe pergunto há quantos anos anda nisto das cantigas. « Desde 1975. Nessa altura já se tocavam umas gaitadas, umas acordeonadas». Depois, manda vir um garrafão de vinho, «daquele melhor, do que eu bebo». Explica-me que onde ele estiver «deve estar sempre, ao lado, um garrafão». Que essa é, aliás, umas das condições dos tratos que faz com os organizadores das festas que anima. Ao seu lado tem que estar um garrafão de vinho, «o meu companheiro». Em certos sítios é mesmo conhecido como «O Homem do garrafão». Leonel Nunes, cantor e acordeonista «brejeiro». Não se rala que chamem música «pimba» ao que faz. Faz música «para o povo». Música «p'ra pular», esclarece o filho, músico da mesma cepa. As cassetes de Leonel vendem-se aos milhares, em feiras, arraiais, quiosques e discotecas. Faz espectáculos por todo o país e os seus temas passam nas rádios.« Ganha muito dinheiro com isso, não é?», pergunto-lhe eu. « O dinheiro não se cava. Já fiz muita noitada e apanhei muita bebedeira. Agora quase que não dá para os tremoços». «O povo está a ficar sem dinheiro» e, portanto, há poucas actuações: «Está mal para todos!».
Leonel Nunes tem 45 anos e vive às portas da Guarda, na Rapoula, a terra onde nasceu. Aprendeu acordeão, «a ver o meu velhote que tocava concertina». Talvez tenha herdado do pai « a paixão pelos harmónicos». «Ando sempre a traquinar neles», diz Leonel, à medida que vai revelando uma colecção impressionante de foles, acordeõs e concertinas. Cada exemplar mais bonito que o outro. «Se for preciso faço um acordeão de raiz» e nós acreditamos, sim senhor. O acordeão que utiliza nos espectáculos merece um lugar de honra na sua oficina. Trata-se de um vistoso instrumento, que lhe custou «mil e cento e trinta contos» e que tem integrado um sistema «midi». Uma pequena «orquestra» portátil. Longe vão os tempos do seu primeiro acordeão, comprado em Timor, em 73, andava o Leonel na tropa.
Durante vários anos foi «construtor civil». Ao mesmo tempo, «por brincadeira» animava casamentos, baptizados e festas de amigos. Depois «o bichinho» foi mais forte e Leonel Nunes dedicou-se por inteiro à sua música. Depois de tocar «coisas de outros» decidiu-se a tratar das letras e das músicas. O seu primeiro êxito deve-se aos... tomates do irmão. A cantiga chamava-se « os tomates do meu irmão» e foi uma farturinha. Chegaram a chamar-lhe o «rei da cassete», tantas eram as pessoas interessadas no irmão (que afinal, nem sequer existe) de Leonel Nunes. O último trabalho tem também um título sugestivo: «Ela ficou na da mãe». Leonel, de semblante carregado, explica-me que o tema fala do «prato do dia, dos divórcios e da separações de bens». Outros temas: «Ela só quer minhoca», «Ela tem bom olho» ou «Põe-lhe o capacete». Só «cantiguinhas com este arzinho», ri-se Leonel Nunes. Malandreco.
Quando começou, o «povo chamava-lhe porco e dizia que ele só dizia asneiras», conta a mulher, « mas agora, o povo só quer disto». «Há 15 anos quem cantava isto? Só eu e o Quim Barreiros. Mas agora é quase toda a gente!», confirma o Leonel. O filho vai mais longe: «As pessoas chamam pimba à música que se vende». Nuno, que estuda engenharia electrotécnica, já tem um trabalho discográfico editado - «No cometa um foguetão». «Gosto deste género de música. Nasci no meio dela». «Quando era bebé, já andava pela casa a tocar testos», diz orgulhosa, a mãe. O rapaz, que tem uma voz impressionante, quer seguir as pisadas do pai. Uma família divertida, sem dúvida.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
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